Rio de Vergonha
Por Martha E. Ferreira
O Rio de Janeiro, assim como o Brasil, tem duas faces. De um lado, um Estado brasileiro de primeiro mundo, com apenas 0,52% do território nacional, mas com uma população de 16 milhões, invejável IDH de 0,8 e PIB de R$417.96 bilhões, como o da Finlândia.
Ele detém 90% das reservas comprovadas de petróleo do país, é o seu maior produtor com mais de 1,3 milhão de barris, por dia, 83% da produção nacional. Recebeu R$ 2 bilhões de royalties, em 2010, e vai sediar R$ 126 bilhões em investimentos privados, nos próximos três anos.
Esta face sofisticada produz e exporta 40% do software nacional, tem diversas instituições acadêmicas de ciências e pesquisas, que são referência internacional, qualificando o Estado como um dos principais centros de conhecimento da América Latina. Além disso, é o maior produtor de aço da mesma região, detém 85% da capacidade instalada na indústria naval e possui algumas das mais belas cidades do mundo, que atraem milhares de turistas, anualmente.
Do outro lado estão 750 favelas. São 1,5 milhão de pessoas, a maioria sem esgotamento sanitário, energia elétrica, projetos sustentáveis de educação, saúde, segurança e infraestrutura, marginalizadas por diferenças sociais e educacionais gritantes, as quais se transformam numa barreira intransponível para a integração com a cidade, lá embaixo.
Esta face escura é secular. Ela acompanhou 55 governos que compactuaram e contribuíram para a sua devastação física e moral, especialmente aqueles a partir da década de 70. O fracasso das políticas habitacionais para populações de baixa renda e o afrouxamento das regras para a ocupação irregular, em troca de votos, atraem cada vez mais moradores para as favelas sórdidas.
As drogas, miséria e morte estão engolindo esses locais, que são controlados por traficantes e milícias, acobertados pela corrupção e impunidade, emparedando a segurança pública. O resultado é uma guerra civil cujo saldo macabro é superior a cinco mil pessoas assassinadas, por ano.
Além das favelas urbanas, existem outras 500 áreas de risco, com cinco milhões de brasileiros dentro delas. O "incentivo" oficial para a ocupação de encostas íngremes e as promoções de "melhorias" transformam as moradias, além de currais eleitorais, em armadilhas mortais, dependuradas nos morros que podem deslizar a qualquer momento.
O que está acontecendo na região serrana do Rio de Janeiro é resultado da falta de escrúpulos dos sucessivos dirigentes dos governos municipais, estaduais e federal. É inadmissível a omissão deles na prevenção das enchentes e deslizamentos de terra, recorrentes e anunciados, que soterram, afogam, ferem, desalojam e desabrigam milhares de seres humanos, todos os anos. E o Brasil continua gastando quatro vezes mais com os reparos dos estragos causados, do que com a sua prevenção.
Precisamos colocar ponto final neste descaso. Urge criar um programa de gerenciamento de riscos que funcione; remover essas pessoas das favelas e áreas de deslizamento; implodir a vergonha que elas representam; e reassentar a população em áreas mais distantes dos perigos, dotadas de boa infraestrutura. O Rio de Janeiro tem verbas para esse fim e os sistemáticos desvios de bilhões de reais provam isso. O brasileiro precisa exercer a sua cidadania, fiscalizar a efetiva aplicação dos recursos e exigir seus direitos à vida, dignidade e que isso passe a ser prioridade para os governantes, sob pena de processo ou prisão sumária.
Martha E. Ferreira é economista e consultora de negócios.
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