Acordo Nuclear entre EUA e Rússia
Por Helvécio de Jesus Jr
O tema das armas nucleares na política internacional era crucial durante a Guerra Fria, quando EUA e União Soviética construíram mais de 15 mil ogivas capazes de destruir o planeta várias vezes. A irracionalidade da Guerra Fria tem ecos ainda hoje e o recente acordo entre EUA e Rússia ainda é um resquício desse período de bipolaridade que colocava o mundo a beira da Terceira Guerra Mundial.
Após quase vinte anos de negociações diplomáticas, os presidentes, Barack Obama dos EUA e Dmitry Medvedev da Rússia assinaram um acordo que limitará o número de ogivas nucleares a 1.550, número 30% menor que o de 2,2 mil ogivas do último acordo.
EUA e Rússia possuem cerca de 80% de todas as armas nucleares no mundo e um acordo desse nível só foi possível após um período de maturação das relações bilaterais que durou cerca de vinte anos desde o final da Guerra Fria. A mudança de governo nos dois países trouxe um novo ânimo de cooperação que era visto como impossível durante a era Bush e Putin, os antecessores de Obama e Medvedev.
O acordo atual substituirá os acordos START, sigla em inglês para Tratado de Redução de Armas Estratégicas. Que formalizou um acordo entre as partes em 1991 e, na sua segunda versão, em 1993. O problema de tais acordos eram os sistemas de verificações e monitoramento, quase sempre falhos. Na visão geopolítica dos dois países, a redução também é condicionada a uma possibilidade de retaliação mínima e a manutenção de uma vantagem estratégica em relação ao resto do mundo. Na política internacional em geral e, especificamente nos temas militares, a desconfiança nunca é totalmente extirpada.
Apesar de ser uma evolução nas relações bilaterais entre Washington e Moscou, o Acordo Nuclear também busca aproximar russos e norte-americanos dos temas mais problemáticos envolvendo tecnologia nuclear. Basicamente, o perigo atual do uso dessas armas está em regimes autoritários e atores não-estatais como grupos terroristas. O Irã avança no enriquecimento de urânio e os EUA desejam com esse acordo um suporte dos russos para evitar que os iranianos modifiquem a balança de poder do Oriente Médio ao seu favor com a aquisição de armas nucleares.
O “clube nuclear” é restrito e não costuma aceitar novos membros facilmente. Vide o TNP como seu garantidor (Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares). O problema não é tanto as armas em si, mas a doutrina estratégica do Estado que as possui. No caso do Irã é uma doutrina ofensiva alicerçada em uma visão fundamentalista-religiosa. Junte-se a isso o fato de Israel, aliado tradicional dos EUA, possuir armas nucleares e não aceitar que o Irã, seu rival as adquira e teremos uma alta probabilidade de uma nova guerra envolvendo vários atores no Oriente Médio. O acordo entre EUA e Rússia, portanto, representa uma ponte para negociação de temas mais perigosos ao mesmo tempo em que sugere lançar um novo regime internacional para armas nucleares entre as grandes potências.
*Helvécio de Jesus Júnior é Mestre em Relações Internacionais pela PUC-RJ e professor do Curso de Relações Internacionais da UVV.
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