A tensão entre as Coreias
Por Helvécio de Jesus Jr
A atual crise militar envolvendo as duas Coreias é um resquício da Guerra Fria. Nesta semana, um ataque norte-coreano com tiros de artilharia, que atingiram a ilha sul-coreana de Yeonpyeongdo, situada na extensão marítima da zona desmilitarizada que divide os dois países desde a guerra envolvendo as duas nações entre 1950 e 1953, levou mais tensão à região.
Mas não se trata de uma novidade. Incidentes na zona militarizada do paralelo 38 são corriqueiros e tornam a fronteira entre as duas Coreias um dos locais mais perigosos do mundo.
A tensão atual ocorre justamente no momento em que os dois lados negociavam troca de oficiais da Cruz vermelha e visitas de parentes separados desde a década de 1950. O maior perigo, como ressaltou a cientista política Ellian Uchiyama, é uma "escalada de um conflito localizado para uma guerra de larga escala com uso de armas nucleares".
O ponto crucial dessa tensão é a instabilidade regional. A Ásia Oriental é uma região de balança de poder precária com interesses de grandes potências como EUA, China, Rússia e Japão diretamente relacionados. O regime norte-coreano é peculiar e segue uma ideologia comunista baseada na autossuficiência. É extremamente fechado e ofensivo em relação a tudo que é estrangeiro.
O chefe-de-Estado, Kim Jong-Il, discursa de forma agressiva contra os EUA, Japão e Coreia do Sul. Desde o início dos anos 90 que os norte-coreanos desenvolvem mísseis e enriquecimento de urânio para suprir sua defesa, asseverada por uma percepção alta de vulnerabilidade.
Raramente os norte-coreanos cumpriram os acordos internacionais que assinaram. Violaram constantemente as diretrizes da Agência Internacional de Energia Atômica, expulsando seus inspetores. Enganaram o governo Clinton usando o dinheiro de ajuda humanitária para investir em armamentos e concluíram seu artefato nuclear à revelia das pressões internacionais via ONU.
O governo de George Bush incluiu a Coreia do Norte no "eixo do mal" e isso piorou a situação, pois Pyongyang recrudesceu em suas medidas militares agressivas em relação ao sul. As negociações tentando tornar a Coreia do Norte um país mais pacífico envolvem o chamado "Six Talks Group", o grupo de seis países além da Coreia do Norte formado por EUA, Japão, China, Rússia e Coreia do Sul que busca investir em energia em substituição do programa nuclear norte-coreano. Não vem obtendo bons resultados.
Em suma, a situação entre as duas Coreias é de difícil resolução porque tecnicamente os dois lados ainda estão em guerra. No fim da Guerra da Coreia em 1953 foi assinado um armistício (cessar-fogo) e não um acordo de paz.
A China poderia desempenhar um papel determinante na resolução do conflito, mas tem receio de que um acordo de paz possa reunificar as duas Coreias tornando o novo país vizinho forte demais e aliado dos EUA e Japão. Algo perigoso em termos geopolíticos para os chineses, que desejam manter a proeminência na região. As duas Coreias nunca estiveram em paz desde a década de 1950 e não há perspectiva de que a situação vá mudar.
Helvécio de Jesus Júnior é mestre em Relações Internacionais pela PUC-RJ e professor do curso de Relações Internacionais da UVV.
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