iPG entrevista Embaixador Rubens Ricupero sobre seu novo livro
No dia 16 de março de 2010, o Embaixador Rubens Ricupero lançou o livro "Diário de Bordo – A Viagem Presidencial de Tancredo Neves" no qual relata o giro internacional feito em 1985 pelo então presidente eleito, quando era assessor para assuntos internacionais.
O instituto Política Global incubiu o Assessor Executivo, Gustavo Bermond de fazer uma entrevista exclusiva com Rubens Ricupero, onde o Embaixador responde às perguntas do nosso interlocutor e relata um pouco do que lhe motivou a escrever este livro.
Abaixo, trazemos pra você um pouco mais desta grande obra de um grande pensador das Relações Internacionais do Brasil:
Embaixador, de onde surgiu a ideia do livro?
O livro na verdade está escrito há 25 anos, uma vez que se trata realmente do que o título sugere, isto é, de um Diário de Bordo. Fui assessor de política internacional de Tancredo Neves quando ainda candidato a presidente desde 1984. Quando ele foi eleito pelo Colégio Eleitoral em 15 de janeiro de 1985, decidiu-se que ele faria uma viagem ao exterior, na qual o acompanhei. Num almoço em casa de seu sobrinho, o hoje senador Francisco Dornelles, discutiu-se a preparação da viagem e, durante a conversa, o embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima, também participante do grupo e o mais graduado dos assessores do Itamaraty, comentou que, tendo consultado os papeis relativos a uma viagem semelhante feita por Juscelino Kubitschek antes de sua posse, havia constatado com desapontamento que os documentos continham apenas informações superficiais - programas, menus de banquestes etc - sem nada de substância. Isso me deu a ideia de fazer algo diferente. Levei comigo uma agenda que acabara de ganhar da Editora Abril e escrevi o relato de tudo o que se passou - conversas com presidentes, primeiro ministros, entrevistas de imprensa, impressões daquele momento - aproveitando os intervalos de lazer, nos hoteis ou nos voos aéreos. Pensei que agora que se completou um quarto de século daquele momento de transição e da morte de Tancredo chegara a hora favorável para tirar o diário do baú e dá-lo a conhecer ao público.
Nos dê um pequeno resumo do que o livro fala
O livro trata basicamente de política externa, das conversas e entrevistas com o papa João Paulo II, o cardeal Casaroli, o secretário de Estado do Vaticano, o presidente da Itália Sandro Pertini, o primeiro-ministro Bettino Craxi, o presidente Mitterand, o primeiro ministro Mário Soares, o primeiro ministro Felipe González, o rei da Espanha, o presidente Ronald Regan, o então vice-presidente George E. Bush (pai), o secretário de Estado George Shultz, o presidente mexicano Miguel de la Madrid, o presidente Alfonsín. Passa em revista os principais problemas internacionais daquela época - a Guerra Fria, o fim da ditadura de Pinochet, no Chile,as guerrilhas na América Central, a crise da dívida externa - indicando as dificuldades com que se defrontaria o governo da Nova República e as possibilidades que se abriam a uma nova política externa. Conforme escreveu na época o professor Celso Lafer, essa viagem ao exterior acabou sendo o "único momento presidencial" de Tancredo porque, como ele morreu logo em seguida, sem tomar posse, não houve outra oportunidade. Desse modo, o livro é a única maneira de saber como teria sido o comportamento de Tancredo como presidente.
Como o Senhor avalia a diplomacia naquela época e hoje?
Pode-se verificar, lendo o livro, que a nossa preocupação, dos assessores do Itamaraty, era manter o presidente-eleito bem informado sobre a política externa que vinha sendo seguida desde a grande "virada" ocorrida na época de Geisel e do chanceler Azeredo da Silveira. Aliás, Tancredo estava de acordo com essa orientação, pois havia dito em discurso em 1984: "Se há uma política que obtém o consenso de todas as correntes do país essa é a política externa conduzida pelo Itamaraty". Nosso desejo era assegurar a continuidade, convencidos de que uma política exterior deve, em suas linhas básicas, expressar os interesses do país como um todo, não de um governo, um regime ou determinados partidos políticos ou ideologias.
O Senhor disse em entrevista ao UOL Noticias, que a Política Externa Brasileira é marcada pela "Busca incessante dos holofotes", desde que período? Houve uma intensificação nos últimos tempos desta busca?
Vejo muita coisa positiva na atual política externa, com a qual estou de acordo, por exemplo, na busca para o Brasil de lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU, nas negociações comerciais da Rodada Doha, na intensificação da diplomacia na África, na Ásia. Por outro lado, penso que ela sofre de um excesso de protagonismo pessoal, excessivamente concentrada na figura do presidente e buscando com frequência um ativismo sem muita racionalidade nem interesse óbvio para o país.
Embaixador Rubens Ricupero lança o livro "Diário de Bordo – A Viagem Presidencial de Tancredo Neves". O iPG conferiu e traz pra você, uma entrevista exclusiva com o Embaixador sobre o livro.
O MUNDO das Relações Internacionais
O Assessor Executivo do instituto Política Global, Gustavo Bermond com o Embaixador Rubens Ricupero
Rubens Ricupero (São Paulo, 1937) é jurista e diplomata de carreira desde 1961. Exerceu, dentre outras funções, a de assessor internacional do presidente eleito Tancredo Neves (1984-1985), assessor especial de José Sarney (1985-1987), representante permanente do Brasil junto aos órgãos da ONU sediados em Genebra (1987-1991) e embaixador nos Estados Unidos (1991-1993). Foi ministro da Fazenda durante o período de implantação do Plano Real (1994). É atualmente diretor da Faculdade de Economia da Fundação Armando Álvares Penteado e presidente do Instituto Fernand Braudel.
Sobre o Embaixador
Capa do Livro