TOP 10: EVENTOS ESPORTIVOS QUE ABALARAM O MUNDO
Por Enzo Tessarolo
Dando continuidade à proposta de elaborar um Top 10 sobre assuntos relevantes à política internacional, iniciada pelo Helvécio neste espaço cibernético, decidi organizar uma lista dos 10 eventos esportivos que mais influenciaram a sociedade, tanto no âmbito nacional quanto internacional.
O sucesso nos eventos esportivos pode, muitas vezes, representar um primeiro passo em direção ao sucesso político; contribuir para o questionamento de uma determinada situação opressiva; ou colaborar com a manutenção do status quo.
Como discutido em post anterior (vide “Invictus e o uso político do esporte”), o esporte já foi utilizado várias vezes com objetivos políticos – culturais, nacionais, raciais... O próprio ressurgimento dos Jogos Olímpicos no final do século XIX esteve parcialmente ligado a uma intenção política de promover a cooperação entre as nações. Todavia, como mostrariam as abordagens realistas posteriores, as Olimpíadas logo se tornaram outra arena onde os Estados poderiam tentar demonstrar sua superioridade no sistema internacional e consolidar sua influência global.
Procurei abarcar o maior número possível de modalidades, embora eu tenha uma preferência pelos eventos futebolísticos, e a numeração não é necessariamente uma ordem de importância: é difícil (e talvez errado) determinar/quantificar se um esporte utilizado como instrumento de união nacional é mais importante do que um que contribuiu para o restabelecimento de relações diplomáticas, por exemplo. Tendo isso em mente, segue a lista dos momentos em que as circunstâncias trouxeram os estádios esportivos para a arena política e social.
10- “O jogo do século” no Campeonato Mundial de Xadrez, 1972
O chamado “jogo do século” entre o americano Bobby Fischer e o russo Boris Spassky está presente nesta lista devido ao seu intrínseco conteúdo ideológico: uma das arenas favoritas da Guerra Fria eram os campeonatos mundiais de xadrez.
Em 1972, a União Soviética dominava os tabuleiros de xadrez desde o fim da II Guerra Mundial, mas o americano conseguiu finalmente colocar um fim à hegemonia russa utilizando um verdadeiro jogo psicológico (Bobby reclamou das supostas “precárias condições de jogo”, chegava sempre atrasado às partidas e se recusou a jogar contra seu adversário inúmeras vezes).

9 – “Diplomacia do Ping Pong”
Em 1971, a então fechada China, comandada por Mao Tsé-tung convidou esportistas norteamericanos para disputarem um torneio de Ping Pong com jogadores chineses. Um ano depois, uma comissão formada por políticos, como Nixon e Kissinger, e atletas visitou a China e as partidas realizaram-se com vitórias norteamericanas (“facilitadas” pelos tenistas de mesa chineses).
A “diplomacia ping pong” acabou acelerando o processo de restabelecimento de relações diplomáticas entre os dois países e contribuiu para o fim de um embargo comercial de 20 anos contra os chineses.
8 - A vitória da África do Sul na Copa do Mundo de Rúgbi, 1995
O recém-eleito Presidente Nelson Mandela soube usar o Rúgbi, associado ao apartheid durante o período segregacionista, como instrumento de integração social. Assim, durante a Copa do Mundo de Rúgbi de 1995, o esporte passou a ser reconhecido por toda a população e, com a vitória da competição, todos celebraram não só a conquista do evento esportivo, mas a união de uma nação – que ainda sofre com a divisão racial.

7- Pelé interrompe uma guerra civil no Congo
Uma das maiores façanhas de Pelé, fora dos campos, foi ter paralisado momentaneamente a guerra civil na atual República Democrática do Congo, quando o Santos fez uma excursão à África, em 1969.
No momento em que a delegação santista chegou ao país e ficou sabendo do conflito, decidiu cancelar o jogo. Tal decisão não poderia ter sido mais benéfica para a momentânea paz civil: as partes beligerantes, atendendo aos pedidos da população, entraram em acordo para que pudessem assistir o rei jogar e durante a realização dos jogos nenhum tiro foi disparado.
De qualquer forma, logo que a delegação deixou o país, a guerra recomeçou.
6 – A Copa do Mundo de Futebol de 1970 e a ditadura brasileira
O futebol entrou na arena política brasileira como instrumento pacificador da ditadura militar da década de 70. Patrocinado indiretamente pelo governo brasileiro, o esporte serviu à proliferação da ideologia de nação monumental e homogênea.
Quem não se lembra dos versos: “Noventa milhões em ação/ Pra Frente Brasil/ Do meu coração/ Todos juntos vamos / Pra Frente Brasil / Salve a Seleção! / De repente é aquela corrente pra frente / Parece que todo Brasil deu a mão / Todos ligados na mesma emoção/ Tudo é um só coração [...]”?!
Com a vitória da seleção na Copa do Mundo, o esporte funcionou como um anestésico da realidade, proporcionando um esquecimento, ainda que momentâneo, da repressão política.


5- A fuga dos boxeadores cubanos, Pan 2007.
Os boxeadores cubanos sempre receberam excelente treinamento e já deram a Cuba 32 vitórias olímpicas. No entanto, parece que as vitórias internacionais serão um passado na história do boxe cubano. Não por incompetência dos atuais pugilistas, mas porque eles estão proibidos de participar de competições no exterior, para evitar que fujam da ilha.
Em 2006, os pugilistas Odlanier Solís, Yuriorkis Gamboa e Yan Barthelemy, todos campeões olímpicos em sua categoria, aproveitaram uma competição na Venezuela para escapar. No Pan Rio de 2007, o bicampeão olímpico Guillermo Rigodeaux e o campeão mundial Erislandy Lara chegaram a pedir asilo político ao governo brasileiro, mas acabaram sendo deportados (ambos voltaram a fugir: Lara agora está na Alemanha e Rigodeaux nos Estados Unidos).
Essas fugas representam claramente o momento de fragilidade econômica, política e social que Cuba enfrenta. Um regime ditatorial que se sustenta pela violência e uma população que tenta fugir da ilha em busca de melhores condições econômicas ou/e maior liberdade individual. O boxe, que por várias décadas serviu de instrumento de propaganda do regime agora funciona de forma contrária, revelando a débil situação de Cuba.

4 – “Guerra do Futebol” (“Soccer War”): El Salvador vs. Honduras, 1969.
No conflito entre os dois países mais pobres da América, o futebol foi o pretexto para um acerto de contas entre os governos hondurenhos e salvadorenhos, de estruturas políticas frágeis.
Questões de ordem sócio-econômica envolvendo a devolução de imigrantes salvadorenhos pelo governo de Honduras constituíram o pavio da bomba, que explodiu quando as duas seleções se enfrentaram nos jogos eliminatórios para a Copa do Mundo de 1970. Após uma série de três partidas, o conflito conhecido como “a guerra do futebol” se iniciou e teve como resultado mais de 2000 mortes e o rompimento de relações diplomáticas entre os dois Estados – a guerra só foi solucionada, quatro dias depois, com a intervenção da OEA.
3 – “Setembro Negro” nas Olimpíadas de Munique, 1972
Os Jogos de 1972 tinham tudo para serem lembrados por seu gigantismo, em virtude da obra de arquitetura inovadora e da capacidade da Vila Olímpica de receber mais de 16 mil pessoas. Contudo, o gigantismo ficou escondido atrás do terrorismo palestino, quando um grupo de terroristas da organização Setembro Negro invadiu os dormitórios da delegação israelense.
Duas pessoas foram assassinadas imediatamente e outras nove foram feitas reféns do grupo. Os terroristas pediram a libertação de 200 árabes prisioneiros em Israel e ameaçaram executar dois reféns a cada hora. Pela primeira vez, o maior evento esportivo do mundo teve que ser paralisado e cogitou-se suspender os Jogos.
Embora o COI tenha mantido a programação original, a Vila Olímpica foi cercada por 4000 policiais, e o incidente teve consequências ainda mais negativas: numa operação fracassada, 18 pessoas acabaram morrendo, sendo os nove reféns, cinco terroristas palestinos, e dois policiais. Acima de tudo, o terrorismo passou a ser muito mais reconhecido como um problema internacional.

2- Olimpíadas de Berlim, 1936.
Os nazistas não pouparam esforços para fazer das Olimpíadas propaganda do regime. Os melhores engenheiros do Reich projetaram o estádio Olímpico, que custou US$ 30 milhões. Todas as grandes indústrias alemãs colaboraram, visando fazer dos Jogos um momento histórico para a glória de Adolf Hitler. Eles não contavam, porém com as quatro vitórias do americano negro Jesse Owens no atletismo, que derrubaram as teses nazistas de supremacia da raça ariana.
No evento que ficou conhecido como “Olimpíadas Nazista”, o número de bandeiras ostentando a suástica era maior do que a bandeira olímpica, e o governo não poupou investimentos em propaganda para demonstrar a força do regime a da raça ariana. A maior propaganda, porém veio de forma inesperada por Hitler e contra seus planos e teses, quando o negro Owens sagrou-se campeão em várias modalidades do atletismo.

1- Olimpíadas de Pequim, 2008.
Rompendo com a tradição de isolamento existente há mais de 2000 anos, a China utilizou os Jogos para assinalar sua entrada na arena dos poderosos. Os chineses aproveitaram a oportunidade e, de fato, consolidaram sua imagem de potência mundial.
Os resultados não poderiam ter sido melhores: os investimentos de U$ 40 bilhões maravilharam o mundo ocidental e a China alcançou o primeiro lugar na classificação geral de medalhas de forma espetacular (foram 51 medalhas de ouro contra 36 dos Estados Unidos, que ficaram em segundo lugar).
Símbolo mais forte que esse do momento global, de decadência americana e ascensão chinesa, não deve haver. Por isso, reservei o primeiro lugar às Olimpíadas de Pequim. Sintam-se livres para continuar a lista.
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